

22/08/2025 15h17
“O absoluto não se escreve, talvez o relativo sim”
Soa como um sopro filosófico que já traz em si a tensão entre o inefável e o narrável.
O absoluto, por definição, escapa à pena, dissolve-se em silêncio. O relativo, ao contrário, implora registros, conceitos, metáforas… É a luta entre o indizível e o dito.
A luz só tem sentido porque existe a sombra; o ego se engana tentando brilhar onde já há claridade. A verdade é que a luz só brilha quando atravessa a escuridão; é no contraste que o sentir fala mais alto que a razão. Somos feitos de luz, mas essa luz só encontra sentido quando se perde e se reencontra no ventre da noite. É no choque entre sombra e claridade que as palavras deixam de ser sinais enjaulados e tornam-se presença viva.
Talvez a metáfora maior seja esta: a razão acorrenta, o delírio liberta. No silêncio do sentir, a luz se revela mais intensa justamente porque nasce da noite.
Onde anda a poesia? Talvez não esteja apenas nos versos, mas no sopro que atravessa o instante, no gesto silencioso, na dor calada, no amor sonhado que não grita, no olhar que se perde e se encontra ao mesmo tempo. A poesia não caminha em ruas visíveis; esconde-se no detalhe, na escolha de cada dia, no que sentimos sem saber nomear. Procurá-la é quase sempre já estar dentro dela — mergulho onde razão e delírio se confundem no criador que nos habita.
As letras que carregamos não são apenas símbolos do alfabeto, mas forças metafísicas. Cada palavra nasce acorrentada por conceitos, mas luta, ferozmente, para escapar da jaula da razão. É nesse embate que o sentir floresce, onde discurso racional se cala e abre espaço para o indizível. A narrativa se torna mapa secreto da consciência: entre o real e o imaginário, entre sombra e luz, entre ego e centelha.
Inspiração é sopro divino que atravessa sem pedir licença. Somos fagulhas de um mesmo fogo, espelhos de um poder maior que insiste em se revelar em cada gesto humano. Louvar não é curvar-se ao externo, mas reconhecer que dentro de nós pulsa uma centelha capaz de criar mundos. Na quietude, o diálogo interno se faz templo; conversamos com o próprio infinito que nos habita. E então descobrimos: não precisamos correr atrás da inspiração — somos feitos dela.
O Absoluto Não Se Escreve
Porque toda letra é mortal, E o Absoluto é sopro que não cabe em ossos de papel. O verbo humano é estreito, um rastro, um eco, Enquanto o Inefável respira no intervalo Entre o silêncio e a palavra que não nasceu.
O Absoluto não se escreve, Ele se deixa intuir — como luz que só clareia na sombra, Como vento que se sabe pelo balançar das árvores. Não se captura o oceano em um copo, Nem o infinito em um dicionário.
Escrevemos fragmentos, sinais, rastros, Mas o todo permanece ileso, intacto, inalcançável. Talvez por isso a poesia exista: Para dançar nas bordas do indizível, E lembrar-nos de que o Absoluto Não se escreve — apenas se vive.
Publicado por Elixandra (costura pensamento filosófico) em 22/08/2025 às 15h17
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