Elixandra cardoso, costura pensamento

"Tecendo silêncios e sentidos entre fios e pensamentos"

Meu Diário
23/12/2025 16h46
OLHAR ESPIRITUAL

E Deus, se é que ainda sussurra, não está no futuro

que corre, mas no instante que pousa.

Amar é dar tempo, rezar é silenciar as tarefas.

A eternidade não está depois da vida: talvez esteja

no intervalo entre dois pensamentos

sem cobrança.


O deus que pune, vigia, castiga e recompensa

é um gerente de medo.

Anota faltas, cobra juros da culpa,

promete céu como prêmio e inferno como chantagem.

Esse deus vive de ameaça

e se alimenta da nossa obediência cansada.

Mas esse deus já morreu.

Morreu de excesso de moral,

morreu de tanto ser usado

para controlar corpos, desejos e silêncios.

Morreu sufocado pela própria vigilância.

O que sobra não é vazio.

É outro nome para o sagrado.

Deus não é juiz nem carcereiro.

Deus é aquilo que Raul canta em Gita:

não fora, não acima, não depois.

É dentro, é agora, é em tudo que respira.

É o que arde quando a gente se reconhece vivo,

inteiro, sem medo de ser quem é.

Esse Deus não observa.

Ele acontece.

Não pune, não premia.

Ele atravessa.

E quem ainda insiste no deus do castigo

talvez só tenha medo de viver

sem coleira metafísica.

 

Cio do Caos

 

Dizem: não se apegue,

as pessoas mudam com o vento dos dias.

Mas meu fôlego é feito de presenças…

sem elas, não respiro.

 

Aqui na varanda,

o caos dança entre Apolo e Dionísio /

sagrado e profano se cruzam,

nasce o yang e o yin como um só sopro.

 

O abismo ferve em mim:

um caldeirão destinado a reunir

o pólen sagrado e as ervas daninhas

num só ritual de criação.

 

Pela física, pela química /

a união dos polos é o que equilibra a equação:

nada sozinho é alguma coisa.

 

Desejamos ter pessoas,

mas quando as temos… desejamos a solidão.

Somos o paradoxo em carne viva,

desejando o que falta, fugindo do que se alcança.

 

Bem-vindo ao retorno eterno:

ninguém entra no mesmo rio duas vezes,

mas é do caos das águas que nasce a estrela dançante.

Entre a ânsia que fere e o tédio que corrói,

somos levados pela corrente da vontade /

querendo, fugindo, recomeçando.

E no abismo do fluxo,

tornamos a dançar.

 

E Deus?

Esse que tem molde… está morto.

Deus é tudo.

Como diz o Gita:

"Eu sou o fogo, o vento, o desejo, o silêncio e o som."

Como canta Raul:

"Deus é isso, é aquilo, é aquilo outro...

Deus é o caos, é o cio, é o todo."

 


Publicado por Elixandra (costura pensamento filosófico) em 23/12/2025 às 16h46
Copyright © 2025. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.

Site do Escritor criado por Recanto das Letras