Elixandra cardoso, costura pensamento

"Tecendo silêncios e sentidos entre fios e pensamentos"

Meu Diário
02/01/2026 15h32
CARTAS DE AMOR SÃO HORROROSAS/ primeiro registro que o cérebro precisava.

Não escrevo pra te chamar de volta.

Escrevo porque o primeiro amor não aceita silêncio.

Ele faz barulho mesmo depois de morto.

Você foi o melhor erro que meu corpo cometeu

e a pior escolha que meu juízo aplaudiu de pé.

Foi o beijo mais quente,

o prazer mais penetrante

e a despedida mais fria.

O toque mais puro

com o espinho mais fundo.

Nada depois de você foi inaugural.

Nada foi imediato.

Você virou modelo.

O molde que o cérebro precisava.

Geometria, memória, cópia.

Tudo o que veio depois

foi repetição com menos brilho.

Você marcou meu cérebro

como cheiro de casa antiga

que a gente não mora mais

mas reconhece de olhos fechados.

Te amei com aquela ignorância linda

de quem não sabe se defender.

Te amei sem manual,

sem cálculo,

sem saída de emergência.

E você me trocou,  penetrou.

Simples assim.

Como quem muda de estação

achando que o clima melhora.

A maldade foi gostosa, não minto.

O prazer tinha gosto de perigo bom.

A ilusão era cruel,

mas extremamente convincente.

Você mentia com tanta sinceridade

que parecia verdade.

Eu acreditava porque queria.

Isso também é uma forma de culpa.

Você me ensinou o que dói mais/

não é perder.

É quase ter sido tudo.

Depois, você morreu.

E isso embaralhou o jogo.

Porque ninguém ensina a brigar com fantasmas

nem a sentir ciúme

de quem virou ausência definitiva.

A morte te congelou

jovem, intenso, errado.

Enquanto eu envelheci

tentando entender.

Hoje, quando o passado resolve bater,

ele vem com tua cara.

Outra vez.

Sempre outra vez.

Como se o amor inaugural

não tivesse relógio,

só retorno eterno.

Hoje ainda te procuro.

Não por saudade romântica,

mas por hábito neurológico.

Procuro tua voz,

aquela que gemeu no meu ouvido

e depois soube me dizer verdades mentirosas duras,

como quem afaga

e corta no mesmo gesto.

Procuro tuas mãos.

As que acariciaram

e as que apontaram meus erros,

como se só eu pudesse errar naquele mundo.

Procuro o sabor da tua saliva,

que um dia foi mel divinal

e depois foi dividida com outra

sem perder a coragem

de parecer única.

O corpo lembra antes da consciência.

O cérebro repete antes de compreender.

E chama de amor

o que foi treino, intensidade, química, engano,  infernal

mas que, ainda assim, foi bom.

Bom porque foi vivo.

Bom porque foi inteiro.

Bom porque me feriu acordada.

Não te escrevo pra fechar ferida.

Primeiro amor não cicatriza.

Vira órgão.

Aprende-se a viver com ele

funcionando torto.

Essa carta não pede resposta.

Nem perdão.

Nem visita em sonho.

É só um registro.

Uma prova de que você existiu

e de que eu sobrevivi.

Cartas de amor são horrorosas mesmo.

Mas algumas precisam ser escritas

pra não apodrecerem

dentro da gente.

 

 

 

 

Talvez seja isso que chamamos de amor/

um registro bem-sucedido no cérebro.

Uma memória que deu certo errado demais.

O cérebro não quer verdade.

Quer familiaridade.

Quer repetir o caminho que já conhece,

mesmo que termine em queda.

Quem busca conhecimento

aprende a sair da zona de conforto do sentir.

Quem não busca

repete o mesmo modelo

e chama de destino.

Fica a pergunta / o primeiro amor

não passa de um registro mal gravado no cérebro,

um modelo antigo que ele insiste em repetir

por medo de aprender outra forma de sentir

 O cérebro é uma máquina, cumpre seu papel, através dos circuitos elétricos dos sentidos.

Emoções não são inteligentes 

Fantasmas existem. 

o conhecimento ajuda.

É isso


Publicado por Elixandra (costura pensamento filosófico) em 02/01/2026 às 15h32
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