Elixandra cardoso, costura pensamento

"Tecendo silêncios e sentidos entre fios e pensamentos"

Meu Diário
06/01/2026 12h06
LABIRINTO DE MEL E VENENO ( Experimental/metáforas/ arquétipico/ mítico/ perda dos sentidos)

São filhos do labirinto

onde o Minotauro não é monstro,

é homem cansado de ser força

sem nome

 

Ele guarda o centro

não por crueldade,

mas porque ninguém o ensinou

a ser Augusto Leão,

a sair inteiro.

 

Ela entra cigana,

saia rodada de presságios,

baralho na boca,

língua afiada de destino.

Leva palavras como quem leva lâminas

embrulhadas em mel.

 

É sereia também.

Canta não pra matar,

mas porque, se calar,

afoga-se.

Sua voz seduz, fere, chama.

Doce veneno.

 

Ele escuta.

Seu nome/ Morcego.

E se perde mais fundo

no mais profundo inferno brutal.

 

Ela fala

e depois prova

do mesmo veneno.

Salomé.

 

Suas palavras o atravessam

como fio de Ariadne ao contrário/

não conduzem pra fora,

conduzem pra dentro,

às entranha.

 

Grita em orgasmos.

Afrodite, rebelde selvagem,

Medusa,

e encorpa.

 

A saliva nasce da boca,

escorre como presságio louco,

líquido antigo,

escrito antes do nome.

 

Sente tua presença agora

em forma de Muladhara,

língua de vento

deslizando onde a pele

guarda mistérios ocultos

das profundezas das felinidades 

não domesticadas,

mãe-sombra.

 

Mãos que não tomam

circundam o corpo.

Cintura que não se prende,

se oferece ao ritmo.

Alma de espelho negro canta/

verso é um passo,

cada promessa,

um corredor sem luz.

 

É mulher que envenena com palavras,

alquimista, bruxa,

e é envenenada por elas.

Mulher-esqueleto,

loba malcriada, diz/

 

Quero teu sangue em cálice ritual.

Quero tua alma em oferenda sacrificial.

Quero tua carne em cordão umbilical cortado.

Quero teu sêmen sem repressão.

Quero teu calor tatuado de runa.

Quero tua alma em vigília,

o pulso que te move.

Quero tua boca em círculos de sal

dizendo o que não escreve.

Quero tuas mãos sem chicote.

Quero teu bem sem prisma da submissão.

Quero teu avesso sem holocausto da obediência.

 

Quero o homem inteiro,

com luz e sombra

de Dionísio e Apolo misturadas.

Não sei como.

Não sei quando.

 

Sem cálculo de coruja que ameaça o delírio.

Mas serei ameaçando razão

e na dança dos quatro ventos.

Serei em personagem

ou usando todos eles.

 

Sua boca fabrica feitiços

de obsidiana negra

que voltam mordendo a língua.

Não existe inocente

quando o verbo é afiado

em batismo de sombras.

 

O Minotauro,

de tiara de serpentes, a olha

com olhos de quem já foi menino

das constelações

de olho de tigre

e pergunta/

 

— Quer saída?

Zahra oferece espelho uterino

da tua própria fragilidade e diz/

Nos amamos assim/

ele com seus chifres de culpa,

eu com meus mitos

de véu nos quadris.

Sem redenção,

sem herói,

sem Teseu.

Porque nesse labirinto

de lágrimas rituais

não se mata o monstro.

Se reconhece.

 

E no centro da palavra mau-dita,

onde o medo ajoelha,

descobrimos tarde demais/

o veneno era doce

porque era verdade.

 

Mulher-fumaça, Lilith, diz

/ com ironia fina do destino /

o mesmo feminino que eles tentaram domesticar com conceitos

voltou séculos depois como pensamento, corpo, escrita, mito, política e linguagem.

somos riscos calculados.

 / feminino / masculino

 

Elixandra Cardoso. 


Publicado por Elixandra (costura pensamento filosófico) em 06/01/2026 às 12h06
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