Elixandra cardoso, costura pensamento

"Tecendo silêncios e sentidos entre fios e pensamentos"

Meu Diário
19/03/2026 11h03
A casa que mente de portas abertas ( ensaio)

Gabriel García Márquez dizia que todo mundo tem três vidas.

Não era poesia bonita. Era inventário.

A gente é uma casa com três portas… e nenhuma abre completamente.

Porque abrir demais dá corrente de ar… e desarruma tudo.

Na porta da frente ( pública), mora o espetáculo.

É o personagem bem penteado, a legenda pensada, o riso na hora certa.

É sobrevivência social.

Ninguém anda nu no meio da praça… pelo menos não emocionalmente.

Quem tenta, vira alvo ou vira piada. Às vezes os dois.

Nos fundos, a vida privada respira mais baixo.

Ali você tira o sapato, reclama da vida, mostra rachaduras pra poucos.

Ainda tem filtro… mas frouxo, cansado, quase desistindo.

É o lugar onde a gente admite que não é tão forte quanto posa.

Mas a casa guarda um quarto sem janela:

a vida secreta.

E aqui o ar pesa.

É o que você não diz nem quando está sozinho.

Desejos que dariam vergonha, medos que você esconde até de quem ama.

Pensamentos que, se ganhassem voz, mudariam o rumo de tudo.

É o lugar onde você é inteiro… e por isso mesmo, perigoso.

E aí entra Nicolau Maquiavel, com a delicadeza de um soco:

quem mostra tudo, perde poder.

Quem não sabe encenar, vira peça no jogo dos outros.

Ele não falava de falsidade vulgar.

Falava de lucidez.

Ser leão quando precisa assustar.

Ser raposa quando precisa sobreviver.

Porque o mundo não premia pureza… premia leitura de cenário.

Só que tem um detalhe que muita gente convenientemente ignora:

máscara demais cola na pele.

E aí você esquece o rosto.

Vira personagem sem autor.

Respira, mas não vive.

Funciona, mas não sente.

Então não, não é sobre escolher entre verdade e máscara como se fosse dilema moral de novela ruim.

É sobre comando.

Máscara consciente é ferramenta.

Máscara inconsciente é cárcere com decoração bonita.

Ser totalmente verdadeiro o tempo todo não é nobre… é imprudente.

Ser totalmente estratégico não é inteligente… é vazio com método.

O equilíbrio não é elegante.

É tenso.

É saber quando fechar a porta sem trancar por dentro.

É saber quando abrir sem virar vitrine.

Porque no fundo… a gente edita a própria existência pra caber nos olhos dos outros.

Não por maldade.

Por defesa.

Por estratégia.

E sim… por uma covardia bem vestida que a gente chama de maturidade.

O problema não é ter três vidas.

É esquecer onde guardou a chave da última.

E viver bonito por fora…

com eco por dentro.

 

 

Vida pública 

Vida privada

Vida secreta 

 

É isso


Publicado por Elixandra (costura pensamento filosófico) em 19/03/2026 às 11h03
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