Elixandra cardoso, costura pensamento

"Tecendo silêncios e sentidos entre fios e pensamentos"

Meu Diário
04/04/2026 11h27
VAMOS DAR NOME AO FANTASMA.

O que você chama de “alguém” é, na real, um arranjo interno.

Uma colagem de memórias, desejos, carências e promessas não cumpridas.

A cabeça pega pedaços de gente real, mistura com o que faltou, tempera com esperança… e pronto: nasce uma presença que nunca existiu no mundo, mas insiste em existir em você.

Sigmund Freud olharia isso e diria: projeção.

Você desloca para fora aquilo que não consegue sustentar dentro.

Ama no outro o que, no fundo, é seu — desejo, falta, ferida.

O objeto não é o outro. É o efeito que ele te causa.

Já Carl Jung iria mais fundo e chamaria de anima/animus:

uma imagem interna do feminino ou masculino ideal,

uma figura arquetípica que você carrega…

e que, de vez em quando, você tenta encontrar encarnada em alguém.

Spoiler cruel: ninguém aguenta esse papel por muito tempo.

E a neurociência, menos romântica e mais seca, diria:

seu cérebro não liga muito pra realidade objetiva.

Ele trabalha por previsão e recompensa.

Ativa dopamina não pelo que é…

mas pelo que pode ser.

Pela expectativa. Pela fantasia.

Você se vicia não na pessoa —

mas na antecipação dela.

Então esse amor impossível que te visita de madrugada

é, na prática, um circuito rodando sozinho,

repetindo uma história que te dá sentido…

mesmo que doa.

A saudade entra aí como uma espécie de eco.

Você não sente falta de alguém.

Sente falta de quem você era enquanto imaginava esse alguém.

Olha a torção:

não é sobre perder o outro —

é sobre perder um estado de si.

E aí vem a parte que ninguém gosta de admitir,

mas você já suspeitou:

Talvez esse amor todo…

essa devoção silenciosa, essa saudade funda…

nunca tenha sido direcionada pra fora.

Talvez você tenha se amado ali,

disfarçado.

Amou sua própria capacidade de sentir,

sua própria profundidade,

sua própria fantasia de encontro perfeito.

Só que, como encarar isso direto exige coragem,

a mente faz um truque elegante:

coloca esse amor num “outro” imaginário,

pra poder desejar sem se responsabilizar.

No fim, fica essa contradição bonita e meio trágica:

você busca no mundo

alguém que consiga te devolver

aquilo que já nasceu dentro de você.

E a madrugada sabe.

Por isso ela não te distrai —

ela te revela.

Se Sigmund Freud abriu a porta e Carl Jung decorou o salão com símbolos, Jacques Lacan veio e apagou a luz só pra você perceber que tava andando em círculo.

Lacan diria que isso tudo não é só projeção.

É fantasia estruturante.

Fantasia, aqui, não é “imaginar coisa bonita”.

É o roteiro invisível que organiza o teu desejo.

É a lente pela qual você vê o outro… e, sem perceber, escreve o papel que ele deve cumprir.

Você não se apaixona por alguém.

Você encaixa alguém dentro de uma história que já estava rodando aí dentro.

E essa história gira em torno de uma falta.

Sempre uma falta.

Lacan chama isso de “objeto a” —

não o objeto real, mas aquilo que você acha que o outro tem

e que vai te completar.

Só que tem um detalhe meio cruel:

esse objeto… não existe.

Então o que acontece?

Você encontra alguém,

projeta nele essa fantasia,

sente aquele arrepio bonito de “é isso”…

e por um tempo funciona.

Até que a realidade começa a escapar do roteiro.

A pessoa falha, escapa, não corresponde à cena que você escreveu.

E aí vem a frustração.

Não porque o outro te decepcionou —

mas porque ele não conseguiu sustentar a tua fantasia.

E a saudade que fica…

não é da pessoa.

É da fantasia funcionando.

É do momento em que o mundo parecia encaixar.

Então quando você diz que sente falta de alguém que nunca existiu,

Lacan daria um meio sorriso torto e diria:

“agora você começou a entender.”

Porque esse amor impossível

é, na verdade, o teu desejo tentando se organizar em torno de um vazio.

E sim… volta naquele ponto incômodo:

no fundo, não é o outro.

É você tentando se encontrar

num espelho que nunca foi feito pra refletir de verdade.

E ainda assim…

a gente continua tentando.

Porque, por mais ilusório que seja,

esse teatro interno às vezes é o único lugar

onde o coração consegue ensaiar sem medo.

 

É isso

 


Publicado por Elixandra (costura pensamento filosófico) em 04/04/2026 às 11h27
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