Elixandra cardoso, costura pensamento

"Tecendo silêncios e sentidos entre fios e pensamentos"

Meu Diário
05/04/2026 15h48
ENTRE O ANDAR CINQUENTA O CHÃO ( primeira parte)

Dizem que viver é subir.

Mentira bonita.

Viver é cair.

Você nasce já no topo de um prédio invisível, desses que não têm escada de volta.

No letreiro lá em cima, meio apagado, quase irônico, está escrito: destino.

E então… você pula.

Não tem plateia, não tem trilha sonora heroica, não tem asas escondidas nas costas.

Só o vento batendo na cara e a certeza crua:

lá embaixo, você vai se despedaçar inteiro.

A vida não é sobre evitar a queda.

É sobre o que você faz enquanto despenca.

No trigésimo andar, tem gente gritando:

“isso é injusto!”

No vigésimo, alguém ainda tenta negociar com o vazio:

“talvez eu não mereça isso…”

No décimo, já tem quem amaldiçoa o vento, o prédio, o mundo, o acaso.

E tem os outros.

Os estranhos. Os quase lúcidos.

Aqueles que, no meio da queda, fecham os olhos por um segundo e sentem o vento como carinho, não como ameaça.

Que olham as janelas passando e pensam:

“olha quanta vida existindo ao mesmo tempo.”

Tem quem ria no meio do abismo.

Tem quem perdoe.

Tem quem ame… caindo.

Porque a escolha nunca foi sobre o chão.

O chão não negocia.

A escolha é sobre o percurso.

Reclamar até o impacto…

ou colecionar pequenos instantes de beleza enquanto o fim se aproxima com a delicadeza de um soco.

No último segundo, não faz diferença o quanto você gritou.

Mas faz diferença o quanto você viveu enquanto caía.

E aí, quando o corpo finalmente encontra o chão — inevitável, brutal, honesto —

fica ecoando no silêncio o único mistério que realmente importava:

como você escolheu cair?

Porque, no fim, como diria Fiódor Dostoiévski,

o mistério da existência humana não reside apenas em permanecer vivo,

mas em encontrar algo por que valha a pena viver.

 

É isso


Publicado por Elixandra (costura pensamento filosófico) em 05/04/2026 às 15h48
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