Elixandra cardoso, costura pensamento

"Tecendo silêncios e sentidos entre fios e pensamentos"

Meu Diário
06/04/2026 15h11
DO PRIMEIRO ANDAR AO IMPACTO ( Segunda parte)

Do Primeiro Andar ao Impacto

( Segunda parte)

 

Nasci no primeiro andar.

Sem escolha, sem memória, só um corpo pequeno demais pra entender que já estava dentro de uma queda.

O prédio era alto demais pra caber no pensamento.

Mas algo em mim já tremia… como quem sabe sem saber.

No décimo andar, aprendi o nome das coisas.

Chamaram de vida, chamaram de destino, chamaram de plano.

Eu acreditei.

Criança acredita até no que não vê, principalmente no que acalma.

No vigésimo, comecei a olhar pelas janelas.

Vi gente sorrindo, gente quebrando, gente fingindo que não estava caindo.

Foi ali que a primeira pergunta me atravessou:

 

QUEM CONSTRUIU ISSO TUDO?

 

No trigésimo, a fé virou dúvida.

O vento já entrava pelas brechas, bagunçando certezas como quem rasga papel velho.

E outra pergunta veio, mais pesada:

 

PORQUE NOS COLOCARAM AQUI?

 

No quadragésimo, o corpo entendeu antes da mente:

isso não era um prédio…

era uma trajetória.

Não tinha escada de volta.

Não tinha botão de parar.

Só descida.

E então… o topo.

Andar cinquenta.

Ali, o silêncio era maior que qualquer resposta.

Um vazio elegante, frio, quase inteligente.

Senti, pela primeira vez, que talvez

quem fez isso… não estava mais aqui.

Ou pior: nunca esteve por nós.

Criaram.

E foram embora.

Sem manual.

Sem aviso.

Sem cuidado.

E então eu pulei.

A queda não é um grito.

É um silêncio rasgando todo corpo por dentro.

O ar bate forte, mas não segura.

Nada segura.

E enquanto o mundo sobe e eu desço,

as perguntas vêm como estilhaço de vidro:

 

quem me fez?

por quê?

isso tudo é erro ou intenção?

 

Mas o vento não responde.

Nunca respondeu.

No meio da queda, percebi uma coisa cruel:

mesmo que eu soubesse…

não mudaria o chão me esperando.

Então parei de perguntar.

Não por resposta.

Por exaustão.

E foi nesse cansaço que algo estranho nasceu:

 

se não tem mão guiando…

se não tem olhar cuidando…

se não tem sentido dado…

então o único lugar onde algo pode existir

é aqui, no meio da queda.

 

Senti o ar no rosto.

Vi fragmentos de vida passando rápido demais:

um toque, um erro, um riso torto, um desejo mal resolvido.

Nada disso impedia o impacto.

Mas tudo isso… preenchia o caminho.

E então entendi, não com a cabeça, mas com o corpo:

não é sobre quem construiu o prédio.

não é sobre por que fui lançado.

é sobre isso —

esse intervalo brutal entre o primeiro andar e o chão.

A queda continua.

O chão cresce.

E eu… estranho o suficiente… ainda escolho sentir.

Mesmo sabendo

que no fim

vou me despedaçar inteiro.

Porque talvez

a única liberdade real

seja essa:

cair consciente…

e ainda assim

não fechar os olhos.

Porque no fim…

não tem metáfora que salve o corpo do encontro.

A queda não falha.

Não se distrai.

Não esquece de ninguém.

Ela cumpre.

E o chão…

o chão não é castigo, nem surpresa.

É só o destino sendo exato.

Sem atraso.

Sem piedade.

Sem sentido dado.

Então eu sigo, ainda no ar,

com o vento cortando e a vida passando rápido demais pra caber nas mãos…

sabendo, com uma lucidez quase cruel:

a queda é certa.

o chão… é o meu destino.

E, ainda assim,

enquanto não chego —

eu sinto.

 

Texto / prosa poética existêncial ( significado o que é a vida)

Inspiração/ filosofia do existencialismo 

Filme Prometheus 

Filme O mundo depois de nós 

 

 

 

Elixandra cardoso...


Publicado por Elixandra (costura pensamento filosófico) em 06/04/2026 às 15h11
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