

06/04/2026 15h11
DO PRIMEIRO ANDAR AO IMPACTO ( Segunda parte)
Do Primeiro Andar ao Impacto ( Segunda parte)
Nasci no primeiro andar. Sem escolha, sem memória, só um corpo pequeno demais pra entender que já estava dentro de uma queda. O prédio era alto demais pra caber no pensamento. Mas algo em mim já tremia… como quem sabe sem saber. No décimo andar, aprendi o nome das coisas. Chamaram de vida, chamaram de destino, chamaram de plano. Eu acreditei. Criança acredita até no que não vê, principalmente no que acalma. No vigésimo, comecei a olhar pelas janelas. Vi gente sorrindo, gente quebrando, gente fingindo que não estava caindo. Foi ali que a primeira pergunta me atravessou:
QUEM CONSTRUIU ISSO TUDO?
No trigésimo, a fé virou dúvida. O vento já entrava pelas brechas, bagunçando certezas como quem rasga papel velho. E outra pergunta veio, mais pesada:
PORQUE NOS COLOCARAM AQUI?
No quadragésimo, o corpo entendeu antes da mente: isso não era um prédio… era uma trajetória. Não tinha escada de volta. Não tinha botão de parar. Só descida. E então… o topo. Andar cinquenta. Ali, o silêncio era maior que qualquer resposta. Um vazio elegante, frio, quase inteligente. Senti, pela primeira vez, que talvez quem fez isso… não estava mais aqui. Ou pior: nunca esteve por nós. Criaram. E foram embora. Sem manual. Sem aviso. Sem cuidado. E então eu pulei. A queda não é um grito. É um silêncio rasgando todo corpo por dentro. O ar bate forte, mas não segura. Nada segura. E enquanto o mundo sobe e eu desço, as perguntas vêm como estilhaço de vidro:
quem me fez? por quê? isso tudo é erro ou intenção?
Mas o vento não responde. Nunca respondeu. No meio da queda, percebi uma coisa cruel: mesmo que eu soubesse… não mudaria o chão me esperando. Então parei de perguntar. Não por resposta. Por exaustão. E foi nesse cansaço que algo estranho nasceu:
se não tem mão guiando… se não tem olhar cuidando… se não tem sentido dado… então o único lugar onde algo pode existir é aqui, no meio da queda.
Senti o ar no rosto. Vi fragmentos de vida passando rápido demais: um toque, um erro, um riso torto, um desejo mal resolvido. Nada disso impedia o impacto. Mas tudo isso… preenchia o caminho. E então entendi, não com a cabeça, mas com o corpo: não é sobre quem construiu o prédio. não é sobre por que fui lançado. é sobre isso — esse intervalo brutal entre o primeiro andar e o chão. A queda continua. O chão cresce. E eu… estranho o suficiente… ainda escolho sentir. Mesmo sabendo que no fim vou me despedaçar inteiro. Porque talvez a única liberdade real seja essa: cair consciente… e ainda assim não fechar os olhos. Porque no fim… não tem metáfora que salve o corpo do encontro. A queda não falha. Não se distrai. Não esquece de ninguém. Ela cumpre. E o chão… o chão não é castigo, nem surpresa. É só o destino sendo exato. Sem atraso. Sem piedade. Sem sentido dado. Então eu sigo, ainda no ar, com o vento cortando e a vida passando rápido demais pra caber nas mãos… sabendo, com uma lucidez quase cruel: a queda é certa. o chão… é o meu destino. E, ainda assim, enquanto não chego — eu sinto.
Texto / prosa poética existêncial ( significado o que é a vida) Inspiração/ filosofia do existencialismo Filme Prometheus Filme O mundo depois de nós
Elixandra cardoso... Publicado por Elixandra (costura pensamento filosófico) em 06/04/2026 às 15h11
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