Elixandra cardoso, costura pensamento

"Tecendo silêncios e sentidos entre fios e pensamentos"

Textos


Meia-noite de um Rascunho / A Hora em que o Corpo Escreve Primeiro.

 

 

Meia-noite de um rascunho.

O vento noturno acaricia a pele, um sopro que arrepia.

O vinho já não é o que aquece.

 

Página em branco.

Os olhos se fecham e o pensamento se solta

como fera no cio literário.

Um calor sobe.

As mãos se aproximam como quem já conhece o caminho.

O tempo se curva diante dela.

As horas parecem suspensas.

A taça de vinho testemunha a cena quente.

 

Entre beijos e suspiros,

o diário se folheia sozinho,

e cada gemido vira poema escrito no ar.

 

Quando a taça se esvazia,

ela se encontra plena,

inebriada não pelo vinho,

mas pelo sabor de amá-lo em pensamentos.

 

Os corpos eram o primeiro texto, escrito no escuro:

pelas curvas, pelas roupas rasgadas, pelos toques,

pelo vinho, pelas horas,

pelos silêncios que ardiam como fogo contido.

 

O som da rede rangendo pedia vírgula, pausa,

talvez um ponto de continuação.

E o vento nas cortinas era página virando sozinha,

impaciente com as varandas agora vazias.

 

O suor dele encontrou a pele dela como tinta quente no papel,

descida de uma pena desobediente.

Os dois, colados, eram frase inevitável,

metáfora encarnada.

 

Cada toque era palavra que ainda não existia,

mas já exigia nascer.

 

Só depois, quando o corpo dele se afastou devagar

e o pensamento pousou sem aviso,

vieram o diário, o vinho, o rascunho.

 

A capa rasgada se abriu

como quem guarda segredos ocultos,

e a mão dela, ainda trêmula do que viveu,

rabiscou a noite antes que ele fugisse inteiro.

 

O desejo virou letras

(gferfcg)

espalhadas sem pudor,

consoantes trêmulas, vogais abertas demais para negar o que o corpo pediu naquele instante.

 

O calor virou linha torta

(∿)

um traço torto que a pele insiste em repetir,

como se cada curva fosse lembrança do toque que ainda arde na pele.

 

As horas viraram promessa em linha dupla

( || )

duas barras fincadas no tempo,

como quem tenta segurar o instante pelas beiradas e pernameçer no delírio.

 

O vinho virou travessão

( — )

uma pausa cheia de intenção,

o fôlego preso entre um gole e a coragem, o coração acelerado.

 

As varandas viraram ponto e vírgula

( ; )

porque nada terminou ali,

só ficou pendurado no ar, meio dito, meio soprado.

 

O gemido virou exclamação

( ! )

um susto bom, daqueles que ninguém finge, a sensação é real.

 

O toque virou aspas

( “ ” )

guardando entre dedos aquilo que não se publica,

mas se sente, com delicadeza de um toque.

 

O amor virou ponto de interrogação

( ? )

porque amar sempre cutuca o peito

com perguntas que não têm pressa, imaginação é o atalho.

 

A paixão se espalhou em reticências

( … )

feito fogo que não se apaga quando acaba a frase. É profundo.

 

O suor virou asterisco

( * )

nota de rodapé do corpo,

pequeno sinal dizendo que algo mais aconteceu,

e ninguém precisa explicar. Apenas quem sentiu.

 

O orgasmo ficou no rascunho do

Diario literário, pulsante, quente, profundo.

 

E ela percebeu que certas madrugadas

não se escrevem/

elas te escrevem primeiro. E ficam os

Rascunhos da meia-noite  no

Diario cúmplice fatal.

 

 

Elixandra (costura pensamento filosófico)
Enviado por Elixandra (costura pensamento filosófico) em 15/11/2025
Alterado em 15/11/2025
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