Elixandra cardoso, costura pensamento

"Tecendo silêncios e sentidos entre fios e pensamentos"

Textos


Alexia / Viúva de Aço na Mão de Quem Maneja a Faca em Carne Viva 🦉🧙‍♀️🧜‍♀️🪡

 

No fundo, não tinha glamour nenhum na vida da senhora Alexia.

O mundo via uma empresária impecável, dona de uma cadeia de açougues espalhados como impérios vermelhos em vários países, mulher que falava seis idiomas e entendia contratos como quem decifra tetragramas antigos. Mas quando a casa fechava, quando a noite descia sem pressa, só sobrava o cansaço de nove anos de viuvez empurrados com fio dental. Qualquer emoção que ela segurava podia arrebentar a qualquer segundo.

Momentos de paroxismo histérico eram frequentes /aquele pico de explosão emocional que chega sem pedir permissão, como se o corpo decidisse gritar o que a consciência tentou varrer pra debaixo do tapete. Tempestade sem previsão, sacolejo de alma, curto-circuito nervoso com gosto de urgência antiga.

 

Foi numa tarde morna que o imprevisto entrou pela porta do açougue de Lisboa.

Ela tinha viajado para revisar a nova equipe. E ali estava ele: o tal funcionário novo. Fred. Braços fortes marcados pelo trabalho, olhar que não pedia permissão, sorriso de quem não sabe que é bonito.

Alexia, que assinava contratos milionários sem tremer, sentiu o estômago errar o compasso por causa de um homem que cortava carne como quem, dedilha aço quente.

 

Não era pra acontecer nada.

Ela sabia.

Ele também devia saber.

Mas existe um tipo de atração que não consulta hierarquias. É física. É química. É esse paroxismo que não tem nada de histérico, mas que explode do mesmo jeito: um ápice de desejo que ninguém admite em voz alta.

 

A primeira vez que ele se aproximou dela no estoque, o cheiro de couro frio da câmara misturado às notas quentes do perfume dela formou um contraste indecente.

Fred perguntou algo banal sobre preços.

Ela respondeu algo ainda mais banal.

Só que a respiração dos dois estava contando outra história por baixo das palavras. Uma história que nenhum dos dois deveria ler, mas que já estava escrita na pele....e no brilho das facas alinhadas atrás dele, afiadas como intenção mal disfarçada. Ele pegou uma das facas e manejou.

 

O ar agora  parecia carregado daquele cheiro metálico de aço recém-lavado, misturado ao odor cru da carne que ele manejava com precisão, como se cada movimento fosse uma confissão silenciosa.

Ele segurava a faca como quem entende o peso do desejo, e ela sentiu que havia algo ali pulsando, algo que cortava mais fundo do que qualquer lâmina do açougue.

 

Quando ele ficou atrás dela para pegar uma caixa, o corpo dele tocou de leve as costas dela.

Foi microscópico.

Mas suficiente para o universo inteiro dela abrir uma fresta e deixar entrar um calor que nove anos de viuvez nunca tinham apagado. Naquela hora, a “viúva de aço” que ela sempre foi sentiu algo estalar por dentro, como se o metal das próprias costas rangisse depois de anos parado, ferrugem antiga cedendo lugar a um desejo que insistia em nascer de novo.

Um fungado discreto no cangote, talvez sem intenção, talvez pura inocência, mas pra ela aquilo foi um convite silencioso.

 

Alexia entendeu / o mundo dela, calculado ao milímetro, estava ruindo com a força de um desejo que ela fingiu durante anos que não existia.

E teve mais /junto desse toque quase inocente, o leve rangido do aço das facas no suporte, vibrando com o movimento dele, como se o metal testemunhasse a aproximação proibida.

 

E é aí que a história começa.

 

Depois daquele quase-toque no estoque, Alexia saiu caminhando como quem carrega um segredo recém-nascido. O salto firme, a postura altiva, tudo no lugar… por fora. Por dentro, uma vibração morna se espalhava pelas costelas, lembrando que ela ainda estava viva, muito viva, apesar de nove anos tentando parecer de aço.

 

Fred, do lado dele, agia como se nada tivesse acontecido.

Só que ninguém engana o próprio corpo.

Os olhos dele entregavam aquela curiosidade elétrica de quem quer, mas não ousa dar o primeiro passo porque conhece a diferença entre chefia e vontade.

 

Nos dias seguintes, a tensão virou rotina.

Um olhar demorado demais quando ela chegava.

Um “bom dia” mais baixo que o necessário.

As mãos dele segurando facas com precisão quase sensual, como se cada corte fosse o gesto exato de desossar a carne, movimento íntimo que só quem domina a faca entende sem precisar pensar...

E ela, sempre organizada, sempre impecável, começava a chegar dez minutos mais cedo só pra observar sem confessar.

 

Foi numa noite de fechamento tardio que o fio dental da vida emocional dela finalmente arrebentou.

 

A loja já estava quase vazia.

Fred limpava o balcão inox, e ela revisava planilhas no celular.

O silêncio tinha aquele peso denso, cúmplice, cheio de espaço pra pecar.

 

Ele se aproximou devagar, como quem não quer interromper, mas quer ser notado.

 

— Precisa de ajuda com isso? — perguntou, voz grave que parecia nascer no peito.

 

Ela levantou o rosto.

O perfume dele, mistura de sabão simples e suor masculino, veio rápido.

Não era sofisticado; era perigoso demais.

 

— Não — disse. — Só tô revisando umas coisas.

 

"Tô". A palavra saiu espontânea, quebrando o verniz polido do aço dela.

Fred sorriu de canto, como quem vê uma rachadura nesse metal e decide não fingir que não viu.

 

— Você parece cansada — comentou. — Muito mais do que deixa transparecer.

 

A frase entrou nela como faca quente na manteiga.

Anos sem ouvir alguém olhar direto pra sua fadiga.

Anos sendo forte demais pra admitir fragilidade.

 

— Cansada eu sempre tô — murmurou. — Só não gosto de mostrar.

 

Os olhos dele desceram para a boca dela por meio segundo.

Ela viu.

Ele também viu que ela viu.

 

O ar mudou.

 

Fred deu mais um passo.

Não encostou.

Mas ficou perto o suficiente pra ela sentir o calor, o cheiro, o perigo doce que se aproxima sem pedir permissão.

 

— Alexia… — ele disse baixo, quase um aviso. — Se eu chegar mais perto, não vai ser por engano.

 

O coração dela subiu até o pescoço.

Nove anos em silêncio quebrados por uma frase simples, direta, sem floreio… mas que incendiou cada pedaço metálico dela.

 

— Então chega — ela falou.

 

E ele chegou.

 

A mão dele encostou na cintura dela com a segurança de quem sabe o que faz, mas respeita o limite alheio como fronteira sagrada.

Ela inclinou o rosto, e ele fungou o cangote dela. Não foi brutal. Foi lento, quente, quase reverente.

Um sopro. Um roçar de nariz. Um convite silencioso que ela aceitou com o corpo inteiro.

 

Alexia prendeu a respiração.

Fred deslizou os dedos pela curva das costas dela.

O mundo diminuiu até caber naquele toque.

 

A viúva de aço tremeu pela primeira vez em quase uma década.

Não de medo.

De vida.

 

E o desejo, finalmente, deixou de ser teoria. Agora era prática.

Prática quente, cortante, daquelas que fazem até o aço interno estalar e a carne viva admitir que sempre quis a faca certa no lugar certo, na hora certa.

 

 

Bibliografia sugerida 

 

Ricoeur, Paul. A Metáfora Viva.

Obra central para compreensão da metáfora como criação de novos sentidos, base teórica para a construção simbólica do conto.

 

Freud, Sigmund; Breuer, Josef. Estudos sobre a Histeria.

Obra fundamental para compreender crises emocionais intensas, descargas afetivas e o corpo falando quando a mente cansa de segurar pose.

 

Didi-Huberman, Georges. A Invenção da Histeria.

Análise profunda da histeria como linguagem do corpo, seus gestos, seus paroxismos e a estética da explosão emocional.

 

Marty, Pierre. O Corpo em Psicanálise.

Referência sobre manifestações somáticas ligadas a tensões psíquicas e colapsos afetivos.

 

OpenAI. Assistência textual e revisão criativa por inteligência artificial.

Ferramenta utilizada para organização estrutural e lapidação do texto.

 

Frases Reflexivas paroxismo histérico 

 

“No canto da mesa, repousava um exemplares  velho de Estudos sobre a Histeria. Ela dizia que lia por curiosidade histórica. Mentira. Lia porque entendia demais o que significa um corpo ser obrigado a gritar quando a mente finge força.”

 

“No escritório dela, entre planilhas e contratos, tinha um livro de capa gasta: ‘A Invenção da Histeria’, de Didi-Huberman. Alexia nunca admitiu em voz alta, mas aquela leitura sobre corpos que explodem quando a alma não aguenta mais explicava mais da vida dela do que qualquer relatório anual.”

 

“Entre contratos milionários e planilhas intermináveis, o livro de Paul Ricoeur, La Métaphore Vive, descansava aberto. Alexia lia sobre metáforas que dão corpo à experiência, e compreendeu que seu próprio corpo começava a falar em imagens de aço e carne antes mesmo que a mente percebesse.”

 

“Cada toque do açougueiro, cada rangido do aço contra o aço das suas costas, parecia uma metáfora viva que Ricoeur descrevia/  símbolos que não se explicam com palavras, apenas se sentem, se estalam, se devoram.”

 

“Enquanto organizava as ideias do dia, ela refletia, e ajudava a estruturar as palavras, como quem alinha facas em bancada inox. Alexia percebeu que até a lógica podia se tornar poesia quando combinada com precisão e metáfora.”

 

 

Metáforas-chave do conto  

 

Aço

rigidez emocional, defesa, dureza que esconde fragilidade

 

Carne viva

vulnerabilidade, desejo exposto, verdade sem máscara

 

Faca

corte emocional, precisão do toque, limite entre controle e entrega

 

Lâmina

tensão, risco, intensidade que pode ferir ou libertar

 

Desossar

despir camadas, retirar o excesso, chegar ao núcleo de alguém

 

Rangido do aço

quebra interna, rachadura das emoções que sempre foi firme demais

 

Câmara fria

solidão prolongada, vida congelada pela viuvez, ou outras escolhas circunstâncias. 

 

Perfume quente

retorno do desejo, calor que descongela anos de luto ( seja qual tipo de luto físico ou emocional)

 

Fio dental emocional

tentativa frágil de segurar tudo, limite prestes a arrebentar ( resolver o mundo e esquecer-se)

 

Paroxismo histérico

explosão acumulada, corpo falando mais alto que a mente

 

Toque microscópico

início da ruptura, detalhe que vira terremoto interno

 

Fungado no cangote

despertar do instinto, invasão íntima e não dita

 

Aço estalando

metáfora do corpo voltando a sentir depois de anos congelada.

 

É isso

Elixandra (costura pensamento filosófico)
Enviado por Elixandra (costura pensamento filosófico) em 23/11/2025
Alterado em 23/11/2025
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