Elixandra cardoso, costura pensamento

"Tecendo silêncios e sentidos entre fios e pensamentos"

Textos


AS TRÊS JANELAS DE OTÁVIO 🦉🧙‍♀️🧜‍♀️🪡

 

Otávio Barreto tinha 54 anos e um coração que teimava em envelhecer torto. Vivia num apartamento de paredes bege, o tipo de lugar que tenta parecer neutro, mas cheira a ressentimento guardado. Trabalhara a vida inteira como gerente de vendas, desses que sabem falar bonito, mas não sabem ouvir nem as próprias rachaduras.

 

A primeira vida dele foi com Helena Duarte, esposa de juventude, mãe dos seus dois filhos já adultos. Vinte e tantos anos de casamento, silêncio mastigado, concessões feitas no escuro e aquela velha convicção dele: “se algo deu errado, alguém me sabotou”. A separação aconteceu num domingo abafado. Otávio jurava que não sabia onde tinha falhado. Helena só respondeu: “cansaço.” Uma palavra simples, mas que para ele parecia uma acusação injusta.

 

Meses depois, como quem troca de camisa para ver se melhora o humor, casou-se com Isadora, 25 anos mais jovem, bonita, radiante, cheia de expectativas que ele confundiu com adoração. Tiveram uma filha. O casamento durou dois anos, até o dia em que Isadora olhou pra ele com uma firmeza que não combinava com sua delicadeza habitual e disse:

“Você culpa o mundo inteiro e nunca percebe que seu problema dorme contigo.”

 

Otávio não ouviu. Atribuiu tudo à imaturidade dela, claro. “Jovem demais, não sabe o que quer.”

E assim virou viúvo de si mesmo.

 

Dois meses depois, como quem corre para fugir das cinzas próprias, engatou um romance com Celeste, 53 anos, seu amor adolescente, paixão antiga reencontrada como notícia velha que a gente decide reler. Era madura, vivida, dona de um sorriso que não precisava provar nada a ninguém. Ele, porém, queria fazer parecer que tinha renascido. Postava fotos com ela no clube, na praça, num quiosque. Nada espontâneo. Era tudo uma vitrine, uma tentativa desesperada de esfregar para o mundo, e especialmente para Isadora, que a vida “andou”.

 

Escrevia frases como:

“A felicidade me encontrou de novo.”

“Cicatrizes são mapas da evolução.”

“O amor ilumina quando a gente deixa.”

 

Só que luz demais às vezes revela poeira.

 

Quando começaram os três meses de romance, Celeste tentou acreditar na segunda chance que a vida parecia oferecer. Mas desconfiança não nasce do vento. Ela vinha de uma noite específica, guardada como espinho fino.

Certo dia, voltando da cozinha, ela encontrou Otávio atrás da porta do quarto, sussurrando no celular como quem negocia segredo. Ao ouvir a madeira estalar, ele se assustou e desligou.

Só que Celeste tinha ouvido o suficiente:

Uma mulher no chat mandando áudio. Ele mandando outro.

E a frase que ficou martelando:

“Você é linda... queria muito ter a chance de te conhecer...”

A mulher respondeu, com aquela lucidez que ele não tinha:

“Mas você não está namorando?”

 

Otávio gaguejou, inventou desculpas, disse que era conversa antiga, disse que ela interpretou errado, disse tudo, menos a verdade.

Ali começou o fio da desconfiança.

Não era paranoia.

Era memória.

 

Três meses de romance e Celeste começou a sentir o cheiro do mesmo vazio que tinha sentido quando jovem, quando terminaram pela primeira vez porque ele era bom em prometer e péssimo em existir. Mas agora havia algo mais grave: Otávio carregava consigo os mortos-vivos das relações anteriores, e os soltava pelo quarto a cada discussão.

 

O clímax estourou numa madrugada quente. Ele roncava, exausto das próprias justificativas. Celeste não dormia. Algo incomodava, um fiapo de desconfiança que não nasceu nela, mas nas contradições dele. Pegou o celular dele, encostou o dedo dele pra destravar.

Por isso, naquela madrugada, Celeste não estava caçando fantasma. Estava confirmando o que já sabia no fundo da pele:

Ele falava de confiança como quem coleciona fechaduras, mas vivia abrindo janelas escondidas para ser desejado por outras.

 

O telefone abriu como uma jaula.

Ele acordou no susto, o horror estampado no rosto, como se tivesse sido flagrado por Deus.

 

A briga foi feia.

Ele repetia:

“É questão de segurança, tenho banco no celular!”

 

Mas o que tremia não era o dedo dela. Era o medo infantil de ter o teatro desmontado.

 

Na manhã seguinte, terminou. Jogou sobre Celeste a culpa inteira, como um casaco pesado:

“Você é ciumenta, paranoica, igual às outras. Não posso confiar numa mulher que mexe no meu celular.”

 

Celeste só respondeu:

“Não posso confiar num homem que se esconde atrás de senha pra proteger não o banco, mas a própria mentira.”

 

A relação ruiu.

 

E aí veio o silêncio que vale por sentença.

 

Tema central introspecção 

 

O conto se ergue sobre o mecanismo psicológico da projeção: Otávio transfere às mulheres a culpa que pertence a ele mesmo. E também sobre o conceito filosófico de má-fé de Sartre: a recusa em assumir responsabilidade pela própria liberdade, preferindo viver uma narrativa inventada, onde ele é sempre vítima, nunca autor.

 

Otávio não era azarado no amor.

Era um homem que nunca ficou sozinho o bastante para descobrir que o caos vinha dele e não das mulheres que atravessavam seu caminho.

 

Final

 

Dizem que, algum tempo depois, Otávio colocou mais uma senha no celular. Não para proteger o banco.

Para proteger a ficção que ele contava sobre si.

 

As três mulheres seguiram suas vidas.

E ele seguiu sendo especialista em apontar culpadas.

Doente de si, mas negando até o fim.

 

Ensaio: Ampliação do Tema Central ( projeção, má-fé, narcisismo, patriarcalismo, afetivas crônicas, infantilidade moral, validação, idealização, lutos amorosos...)

 

Além da projeção e da má-fé já mencionadas, o comportamento de Otávio pode ser lido como uma mistura indigesta de:

 

Narcisismo relacional

 

Não precisa ser um narcisista clássico de manual. Basta ter aquele padrão: ele não suporta imaginar que falhou. Qualquer rachadura vira ameaça ao personagem que tenta interpretar.

Quando a mulher questiona, ele não escuta o conteúdo, só sente ataque ao ego.

Então devolve culpa para se manter intacto.

 

No fim, ele ama a própria imagem mais do que qualquer pessoa.

 

Resquícios de patriarcalismo emocional

 

Otávio opera no modelo antigo:

Homem não erra, homem “é assim mesmo”, mulher que tem que entender.

Ele se coloca como centro moral, e espera que as mulheres orbitando ao redor assumam a função de regulá-lo, perdoá-lo, suportá-lo.

Quando elas não cumprem esse papel, ele diz que são difíceis, ciumentas, imaturas.

 

É o script velho do patriarcado rodando no smartphone novo.

 

 Evitação afetiva crônica

 

O sujeito vive fugindo do incômodo de se olhar.

Salta de relação em relação para não encarar a solidão que revelaria o verdadeiro problema.

Ele cria vínculos “tampão”, não vínculos reais.

Quando a intimidade chega perto demais, bate o pânico e vem a sabotagem.

 

Infantilização moral

 

Otávio funciona com lógica de criança:

Se eu fiz algo errado, não quero saber.

Se você descobriu, o erro é seu.

Se você reclamou, você é exagerada.

Se você foi embora, você é ingrata.

 

Ele se recusa a assumir a própria agência no fracasso das relações, como se fosse sempre uma vítima arrastada pelos atos alheios.

 

Dependência narcísica de validação

 

As fotos com Celeste, as frases motivacionais, o exibicionismo sentimental... tudo isso é uma tentativa desesperada de convencer o mundo e a si mesmo de que está bem.

A felicidade vira performance, não experiência.

 

Ele não quer amar.

Quer provar que é amável.

 

 Idealização e descarte

 

Clássica dança tóxica:

Ele idealiza a mulher no início, transforma a outra em símbolo de salvação.

Depois, quando vê que ela é humana, com limitações e inseguranças, passa a desvalorizá-la.

O problema não é ela.

É a incapacidade dele de lidar com realidades que não obedecem ao seu script interno.

 

Falta de elaboração dos lutos amorosos

 

Otávio nunca fecha um ciclo.

Ele só troca de cenário.

Isso faz com que cada nova relação carregue fantasmas das anteriores.

Celeste não viu erro nela.

Ela viu o peso de duas ex-mulheres apertando o quarto sem ter sido convidadas.

 

É isso...

Elixandra (costura pensamento filosófico)
Enviado por Elixandra (costura pensamento filosófico) em 04/12/2025
Alterado em 04/12/2025
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