

VONTADE DIVIDIDA / Entre o que prende e o que chama1🦉🧙♀️🧜♀️🪡
O dia amanheceu radiante, desses que o sol chega atrasado mas, mesmo assim, ilumina o que precisa. Fui caminhando rumo à padaria, ainda meio sonolenta, quando a cena apareceu: cinco casas depois da minha, lá estava o vizinho sentado na calçada com o passarinho de estimação. A gaiola semi-aberta para o ar da manhã, bem arrumada, ampla, limpa, abastecida de comida e água. Tudo perfeito. Tudo confortável. Tudo errado.
Porque conforto não é liberdade.
O passarinho, quieto no poleiro, parecia olhar o céu do mesmo jeito que quem olha uma janela por dentro: desejando, calculando, sonhando. Ele tinha tudo, menos o que importa. Aquele pequeno corpo queria altura. Queria o vento batendo nas asas, queria construir o próprio ninho, espalhar semente por aí, amar quem quisesse e pousar onde desse vontade. Queria vida vivida, não concedida.
E talvez o vizinho soubesse. Talvez sentasse ali todo dia com o passarinho justamente porque também tinha essa vontade dividida dentro do peito. Metade dele precisava da companhia, do costume, da rotina que não exige coragem. A outra metade talvez quisesse abrir a mão, destrancar a porta da gaiola e deixar o bicho descobrir o próprio mundo.
A cena me acertou como quem entende uma verdade sem pedir. Vontade Dividida/ entre o que prende e o que chama.
Nós somos esse passarinho. Somos também o vizinho. Somos gaiola, desejo e mãos trêmulas diante da tranca.
Vivemos agarrados a hábitos que não fazem mais sentido, a amores que já foram embora mas seguimos carregando, a preconceitos herdados como móveis velhos, a promessas que ninguém nos obriga a cumprir. Vivemos presos a costumes que só repetimos por medo de desaprender, a dogmas que pesam feito pedra no bolso, a raivas guardadas como se fossem herança, a mágoas que viram colchão duro onde deitamos sem perceber. Ficamos enroscados em casamentos de mentira, empregos que engolem o convívio da família, ideologias que nos oprimem, verdades que já caducaram, crenças que não servem mais nem como lembrança. Queremos liberdade, mas tememos o vazio que existe entre soltar e saber voar. Queremos o paraíso, mas estacionamos na segurança apertada do que já conhecemos.
E o tempo passa. Passa como o sol da manhã passando pela grade da gaiola. Passa como o pão esfriando na sacola. Passa como a vida passa para quem observa mais do que vive.
A vontade dividida é essa febre que dá quando percebemos que algo dentro de nós grita para ir, enquanto outra parte insiste para ficar. É quase loucura, quase coragem, quase salto.
No fim, continuei meu caminho até a padaria, mas levei comigo a imagem dos dois: o homem preso ao pássaro, o pássaro preso ao homem, e os dois presos ao medo de abrir espaço pro voo.
Porque liberdade dói no começo. Mas uma vida inteira sem tentar dói muito mais.
É isso Elixandra (costura pensamento filosófico)
Enviado por Elixandra (costura pensamento filosófico) em 07/12/2025
Alterado em 07/12/2025 Copyright © 2025. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |