

CHÁ DE CLITÓRIA E FACES OCULTAS / conversas que tiram o altar dos filósofos
A manhã de domingo amanheceu fria por aqui, dessas que parecem puxar a alma pelo casaco, e pelo sótão onde a gente guarda o que não quer lembrar. A sala da minha casa estava meio penumbra, meio aconchego, o vapor do chá de Clitória adoçado com rapadura subindo como reza sagrada esquecida. As janelas suavam, e a mesa, coitada, aguentava os cigarros queimando torto no cinzeiro trincado na borda.
Nós três, enroscadas em mantas, deixávamos as faces ocultas da vida se confessar sozinha.
A primeira Margareth, olhos cansados e boca inquieta, contou seu causo como quem remenda rasgo em vestido antigo/ estava com Lúcio fazia três anos, ele largou a esposa pra ficar com ela, mas vivia num eterno quase. Quase divorciado. Quase presente. Quase homem.
A segunda Marcely, suspirou mais fundo que tragada de cigarro bom. Disse que o casamento esfriou, que o marido virou paletó antigo guardado no fundo do guarda-roupa/ ocupando espaço, ainda tem serventia, mas já não desperta nada. Estava pensando em sair com um rapaz do trabalho, desses que têm sorriso que ferve e olhar que pede perigo e agulha que sangra.
Elas falavam suas faces, o chá esfriava, e o domingo parecia nos ouvir.
Quando perceberam que eu não abria meu peito, perguntaram da minha vida. Respondi do meu jeito direto: – Tô focada no trabalho. Tô escrevendo sobre liberdade, maturidade, Espinosa, e aquela outra ali Simone de Beauvoir … sim, a tal feminista esquerdista vocês não gostam. O tema também toca na resistência das mulheres diante do etarismo.
Foi como jogar um ferro em brasas acesas no colo delas. As duas ficaram de boca aberta, como se eu tivesse anunciado que ia estudar feitiçaria de primeiro grau, ou escrever um manual de alta-costura com instrução do poliamor.
– Espinosa até vai, mas essa outra aí… pelo amor! – disseram quase em coro. – Procura a biografia dela, mulher! Vai ver o lado oculto da criatura! Faltou só encaixar a outra tal de Frida Kahlo.
Balançaram as cabeças como quem alerta para lobos à solta. Eu só respirei fundo. Chá, cigarro e paciência.
E aí respondi, sem levantar a voz, só a verdade:
“Não se lê profetas, lê-se espelhos.”
O erro é transformar pensamento em religião. Ideia em dogma. Autor em santo.
Nenhum pensador é mais puro que a lama de onde veio. Todo conceito nasce do tropeço, toda teoria cheira a pele e contradição. Quem escreve sobre liberdade carrega correntes invisíveis. Tentando se libertar Quem fala de amor ainda sangra do último adeus, curando o abandono. Quem ensina ética muitas vezes o faz pra se perdoar. Quem prega moral tenta costurar o próprio rasgo, briga com próprio reflexo. Quem discute política esconde feridas antigas de poder. Quem ergue bandeira religiosa procura sentido no próprio deserto. Quem fala de existência tenta não afundar na própria noite. Quem decreta verdades batalha contra o medo de estar perdido.
O sábio é só um errante que aprendeu a dizer bonito o que não viveu inteiro. Mas o leitor escolhe / ou ajoelha, ou pensa.
Há quem leia filosofia como quem acende vela num altar. O livro vira evangelho, o autor, profeta, e o pensamento, mandamento. Mas nenhum autor veio do céu; vieram do barro, como nós. Sujaram-se, amaram errado, prometeram verdades que não couberam na própria vida. O pensamento não é milagre. É cicatriz. É o jeito de não enlouquecer.
Por isso ler exige desconfiança coragem e / não pra seguir, mas pra se perder junto e voltar outra pessoa.
Quem ajoelha diante de ideias deixa de pensar — e vira mais um devoto daquilo que era pra libertar. Filosofia não pede fé, pede ânimo: a de olhar o abismo e não procurar um mestre pra segurar a mão. E se a gente lê um autor, não é pra copiar o pensamento dele. É pra entender como ele pensou, por que pensou, em que época pensou, com quais dores pensou. O pensamento de alguém sempre nasce de um contexto, nunca de uma nuvem iluminada. Mesmo quando eles não viveram tudo o que pregaram, a obra ainda revela a luta que travaram.
Uns escreveram grandeza enquanto carregavam ruínas. Poderia citar uma lista enorme.
Nietzsche filosofou sobre liberdade enquanto o corpo desmoronava. Kierkegaard pregou escolhas profundas, mas fugiu do próprio noivado por medo de não amar à altura. Heidegger escreveu sobre existência enquanto se enroscava com política sombria. Sartre falava de engajamento e vivia labirintos afetivos que nem ele conseguia mapear. Simone de Beauvoir teorizou sobre emancipação vivendo paixões complicadas e assimétricas. Foucault discutiu poder enquanto enfrentava seus abismos pessoais e o próprio corpo como campo de batalha. Schopenhauer escreveu sobre compaixão, mas tinha um temperamento capaz de empurrar gente escada abaixo. E Espinosa, o tão “puro”, foi exilado da própria comunidade porque pensou diferente demais, e pagou caro por isso. Até Agostinho, que o povo endeusa, teve seus delírios de juventude. Amou demais, amou desordenado, amou até ficar sem fôlego. Teve vida sexual ativa, intensa, cheia de relações, depois virou santo e passou a pregar continência, mas a biografia dele lembra: antes da santidade vem o corpo, e o corpo nunca mente.
Se lê como se abre uma caixa de ferramentas / cada conceito é útil, mas nenhum substitui a própria vida. O humano por trás da teoria não é exemplo, é aviso. A obra mostra o caminho; a sombra deles mostra o preço.
Quando terminei, elas ficaram caladas. Um silêncio pesado, mas vivo, pairou na sala. Só o cheiro da Clitória teimou em se mover.
Então eu concluí, como quem arremata costura:
– E sim, já verifiquei a biografia de todos os autores do meu projeto. Não só os principais. Pesquisei os comentadores também. Eu não busco profetas. Eu busco espelhos. Os espelhos certos. Os que não deformam a alma.
A manhã continuou fria, mas a conversa, não. A sala ficou cheia de fumaça, de pensamento solto e de mulheres que, mesmo feridas, ainda sabem beber chá de Clitória como quem prepara coragem de encarar as próprias faces ocultas, de admitir as sombras que cada uma arrasta, de parar de julgar como se alguma de nós fosse mais pura que a lama de onde todo mundo veio...
Segue abaixo lista de autores e comentadores do projeto de pesquisa...
Espinoza (base da espiritualidade sem dogmas e liberdade como potência)
Obras primárias:
Ética (o coração do pensamento dele: conatus, afetos, liberdade, Deus como natureza).
Tratado Teológico-Político (crítica aos dogmas religiosos e defesa da liberdade de pensamento).
Comentadores:
Marilena Chaui – A nervura do real.
Deleuze – Espinosa: filosofia prática.
Antônio Negri – A anomalia selvagem (se quiser ousar).
2. Simone de Beauvoir (condição feminina e velhice)
Obras primárias:
O segundo sexo (a objetificação da mulher e sua condição histórica).
A velhice (análise filosófica do envelhecer, especialmente na mulher).
Comentadores:
Heleieth Saffioti (para olhar feminista e social no Brasil).
Textos contemporâneos sobre etarismo e feminismo interseccional.
3. Existencialismo (liberdade, projeto, sentido)
Sartre: O existencialismo é um humanismo (introdução).
O ser e o nada (mais pesado, mas útil sobre liberdade, má-fé e o olhar do outro).
4. Estruturalismo e pós-estruturalismo (normas, discurso, poder)
Foucault: Vigiar e punir (normalização, corpos, poder disciplinar).
História da sexualidade I (biopolítica, discurso sobre corpos).
Derrida: A escrita e a diferença (desconstrução, binarismos).
5. Estética e linguagem (representações da mulher madura)
Textos sobre representação da mulher na mídia e na arte.
Estudos de linguagem sobre discursos sociais e etarismo (artigos na SciELO e CAPES).
6. Etarismo (núcleo contemporâneo)
Artigos de psicologia, sociologia e filosofia sobre preconceito etário.
Pesquisas brasileiras em revistas de gerontologia, feminismo e filosofia da existência.
Nome científico Clitoria ternatea. Uma flor azul intensa que dá um chá lindo e trás varios benefícios...
É isso... Elixandra (costura pensamento filosófico)
Enviado por Elixandra (costura pensamento filosófico) em 11/12/2025
Alterado em 11/12/2025 Copyright © 2025. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |