

PROSA POÉTICA / DOS DOMINGOS QUE NÃO ABRAÇAM / Entre o luto dos que partiram e o cansaço dos que ficaram...
Hoje ela acordou rasgada por dentro. Nada é como antes, nunca mais foi, e isso já virou até um tipo de rotina malcriada. Levantou devagar, como quem reaprende a andar, e o chão parecia estranho, frio, quase distante. A xícara de café esquecida na mesa desde a noite passada tinha formigas lambendo o entorno. Talvez estivesse amarga como verdade dita tarde demais.
O domingo? Esse miserável. Gosta de cutucar a ferida com a ponta de agulha. Pede presença, pede gente, pede barulho, mas entrega só eco. Um vento gelado entrou pela janela pedindo coberta, mas ela só tinha a própria pele ferida cansada pra se embrulhar.
Sentou no sofá como se ele fosse um velho conhecido que entende tudo sem perguntar nada. Ligou a música. Aquela. A que arranha a memória igual agulha em porta de frande. As notas batiam no peito, lembrança por lembrança, numa sequência malvada, um peso que não se distribui. Era o tipo de som que não consola, mas acompanha, e às vezes isso é tudo.
E no meio daquele cenário meio cinza desbotado, meio doído, apareceu a frase que salvou o dia. Não veio de livro de auto-ajuda, não veio de santo, não veio de manual de vida perfeita. Veio dela, daquela pessoa que cruzou o caminho numa visita inesperada, numa ligação, numa mensagem. Justo quando ela mal se reconhecia andando, ouviu:
“Não é o fim. É passagem. Você não está só.”
Aquilo caiu como coberta quente em manhã de agulhadas.
Não curou, mas acalmou.
E às vezes é só isso que o coração precisa pra seguir.
Ela respirou fundo, deixou a xícara ali mesmo, com o café derrotado que tinha preparado, e levantou.
Seguir não é bonito. Seguir não é leve.
Seguir é o simples ato teimoso de colocar um pé depois do outro, mesmo quando o mundo por dentro parece uma casa abandonada. E o domingo ronda pelos cantos feito lutos que não sabe ir embora.
E foi o que ela fez.
Entre o frio, a música e café e as agulhadas de domingo mudo, ela se moveu.
Devagar, mas se moveu.
Porque alguém disse: “É passagem, não é fim. Você não está só.”
E ela acreditou só o suficiente pra não parar.
Não foi cura mágica. Foi o primeiro passo. E ela sabia / outros domingos sem abraço ainda viriam, desses que chegam mudos e vão embora pesando. Mas um passo já era mais do que o vazio esperava.
E enquanto caminhava até o banheiro, lembrava daquilo que ninguém gosta de admitir / presença importa. Às vezes é só uma palavra curta, quase tímida, que segura o domingo no lugar. Às vezes é um abraço que não resolve nada, mas impede a gente de despencar. Às vezes é o silêncio que diz mais do que qualquer discurso ensaiado. A gente precisa uns dos outros, mesmo fingindo independência.
Ela entrou no banho gelado como quem leva junto a memória desse amparo. A água descia, o sabonete passeava lento pela pele, e ela entendia que não era só limpeza. Era lembranças. Era a infância que se foi correndo no quintal e nunca mais voltou. Era os pais que partiu deixando um silêncio que ainda encosta nos ombros. Era o marido presente só no nome, ausente no gesto, sombra que não aquece. Era o encontro de família que rachou no meio, cada um levando um pedaço de afeto na mala. Era tudo isso misturado, escorrendo junto com a água fria. Era gratidão torta. Era a consciência de que ninguém atravessa esse labirinto completamente só.
O mundo ainda pesava, o domingo ainda era amargo, mas ali, naquela ducha fria, ela segurava firme a única certeza possível naquele dia / um gesto humano, mesmo pequeno, sustenta o que a força não alcança.
E isso bastou pra seguir mais um pouco.
Não porque a vida ficou leve, mas porque ela aprendeu que avançar também é feito desses fiapos de linhas mínimas / uma frase dita na hora certa, um gesto que segura a queda, uma memória que não se rende. Às vezes o que move é quase nada, mas é esse quase que salva os dias de luto nos domingos...
Feliz São Domingos...
Reflexão...
Entre o luto dos que partiram e o cansaço dos que ficaram mora um território sem nome. Não é só a morte física que inaugura o luto. Há pessoas vivas que já se foram. Há sonhos enterrados sem velório. Há versões nossas que não resistiram ao tempo e ninguém levou flores.
Domingo escancara isso porque ele não oferece fuga. Ele senta no sofá, abre o álbum invisível e deixa o cheiro das lembranças subir. Café frio, casa quieta, Musica desafinada, e memória que vem sem pedir permissão. O luto aparece inteiro, sem legenda. Não grita. Pesa. Cansa. Ocupa o corpo como um móvel antigo que ninguém tem coragem de jogar fora, porque trás recordações.
E sempre surge alguém bem-intencionado dizendo: “é passagem, não é o fim, você não está só”. Não está errado. Só é insuficiente. Porque saber que todos estão no mesmo labirinto não entrega o mapa. Cada um sangra em corredores diferentes.
Esse luto não quer consolo rápido. Quer reconhecimento. Quer que alguém diga /isso dói mesmo. Dói perder gente, fases, futuros imaginados. Dói continuar quando algo em nós ficou pelo caminho.
Entre quem partiu e quem ficou, o domingo vira altar silencioso. Não para resolver. Para lembrar que viver também é aprender a carregar ausências sem fingir leveza... com isso encerro dizendo /VIVA O LUTO SEM RESERVAS NOS DIAS DE SÃO DOMINGOS...
É isso Elixandra (costura pensamento filosófico)
Enviado por Elixandra (costura pensamento filosófico) em 14/12/2025
Alterado em 14/12/2025 Copyright © 2025. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |