Elixandra cardoso, costura pensamento

"Tecendo silêncios e sentidos entre fios e pensamentos"

Textos


Embriagados pelo Gozo Doce de um Olhar que Penetra🦉🧙‍♀️🧜‍♀️🪡

prosa poética sensorial de viés trágico-filosófico.

 

Lá nas terras quentes, a noite parecia calma.

Calma demais pra ser quente.

Daquelas que se arrumam por fora

e conspiram por dentro.

A sala da casa respirava uma ordem ensaiada:

luz morna grudando na pele,

silêncio bem colocado,

o tipo de tranquilidade que só existe

antes do desmoronamento.

 

Licor aberto.

Um artesanal, encorpado,

com cheiro de madeira e fruta madura,

desses que prometem profundidade no primeiro gole

e cobram depois, no corpo.

A canção escorria baixa pela sala,

um tango antigo misturado à bossa nova,

voz arrastada, melodia que sabe seduzir sem tocar.

Convite velho,

desses que o corpo reconhece

antes da razão alcançar.

 

Incensos de mirra queimavam

sobre a mesa de centro de vidro,

transparente demais pra esconder qualquer coisa,

exalando um doce amargo que se misturava ao licor no ar,

numa tentativa meio ingênua de purificação estética.

Tudo arrumado. Tudo bonito.

Cenário perfeito para o autoengano.

 

Porque não foi o artesanal que embriagou primeiro.

Foi um olhar.

Rápido. Clandestino.

Desses que não pedem opinião e ficam.

Um olhar que atravessa,

promete mais do que devia

e entrega exatamente o suficiente

pra desorganizar tudo.

 

Uma taça de licor no centro,

testemunha muda de todo clamor.

A folha de papel almaço aberta,

ela se preparando para escrever

sobre aquele olhar roubado que penetra não  o corpo, mas  a alma.

aquela invasão breve e funda.

As folhas em branco se oferecendo

como um abismo elegante,

limpo demais pra ser seguro.

 

Foi suficiente uma taça.

Não pelo licor,

mas pelo que ela queria esquecer dentro dele.

O corpo cedeu.

Adormeceu como Dionísio à beira do excesso,

acreditando que o êxtase não cobra retorno.

à beira do espelho,

confiante demais na própria imagem,

convencido de que ainda controlava a profundidade.

 

Quando despertou,

a cena havia revelado o truque.

A taça agora trazia a marca do batom,

um resto de licor no fundo

e formigas boiando no líquido artesanal.

 

Pequenas.

Ávidas.

Com aquele mesmo olhar faminto encontrado nas vielas da vida.

Bêbadas de doçura,

rodopiando no prazer que as afogava,

sem perceber onde acabava o convite

e começava a armadilha.

 

Embriagadas de si mesmas.

Como ela.

 

Elas não sabiam parar.

Como ela.

 

O tango seguia tocando,

mas já não seduzia.

Era só som repetido,

quase um erro.

O incenso virou fumaça cansada.

A bebida, armadilha brilhando

sob a luz morna parada da sala.

 

Na folha, uma frase escrita

com lucidez tardia:

 

“Ah, se eu pudesse sair de mim por um tempo

e olhar”

 

Bonito e cruel

ver o próprio colapso

sem precisar sustentar a pose.

 

A embriaguez da alma, percebeu,

não é só do copo.

É espiritual 

É emocional.

É vaidade da dor.

É ficar tempo demais admirando

o próprio reflexo no sofrimento,

achando que controla a profundidade

só porque ainda não afundou de vez.

 

As formigas boiaram até o fim.

A taça permaneceu imóvel.

 

E ficou claro, sem poesia salvadora/

E ela entendeu, muitas vezes não somos vítimas da queda.

Somos seduzidos pela doçura de um olhar que penetra a alma.

que nos afoga devagar. Porque o olhar, aqui, não é carne.

É encontro.

É força que afeta, que aumenta ou diminui a potência de existir,

que revela sem explicar.

 

O que nos derruba não é o outro.

É aquilo que, ao sermos vistos,

passamos a ver em nós mesmos, o que não queriamos enxergar...

 

E isso não é sedução.

É exposição.

 

REFLEXÃO ENSAIO ACADÊMICO:

 

Em Ética, Espinosa define os afetos como as variações da potência de agir do corpo e da mente, isto é, os modos pelos quais somos afetados nas relações que estabelecemos com o mundo e com os outros. Os afetos não são acessórios da experiência humana, mas seu núcleo constitutivo. Eles indicam, antes de qualquer julgamento racional, se uma relação aumenta ou diminui nossa potência de existir.

 

Nesse sentido, afetos não são apenas sentimentos internos, subjetivos ou privados. São efeitos produzidos no encontro entre corpos, ideias, palavras, gestos, ações e olhares. Um afeto sempre nasce de uma relação. Não há afeto sem exterioridade. Algo nos toca, nos atravessa, nos desloca.

 

Espinosa distingue afetos ativos e passivos, mas ambos funcionam como sinais. Eles revelam como estamos sendo determinados por aquilo que nos encontra. Assim, um olhar, uma atitude ou uma fala não dizem apenas algo sobre quem os emite, mas expõem algo de quem os recebe. O afeto revela a estrutura do sujeito afetado.

 

Aplicando isso ao campo simbólico, não é necessário que o impacto seja literal. Opiniões, gestos mínimos, silêncios ou presenças breves operam no mesmo plano. Afetam. Modificam. Produzem deslocamentos internos muitas vezes inconscientes. O sujeito não escolhe ser afetado; ele apenas se percebe afetado depois que algo já se moveu.

 

É nesse ponto que a reflexão pode ser colocada em diálogo com Sartre. Quando Sartre afirma que a existência precede a essência, ele está dizendo que o sujeito não nasce com uma identidade fixa ou um sentido previamente determinado. O ser humano constrói sua essência a partir de suas ações, escolhas e relações. Mas essa construção não acontece no vazio.

 

Toda escolha ocorre num mundo habitado por outros. Toda ação incide sobre o outro e, simultaneamente, recebe retorno dele. Assim, a constituição da subjetividade é sempre individual e coletiva. Construímos a nós mesmos, mas nunca sozinhos. Somos atravessados por olhares, expectativas, julgamentos e reconhecimentos que participam da forma como nos compreendemos.

 

Dessa forma, o olhar descrito no texto não se refere essencialmente ao homem que olhou. Ele não é o centro do acontecimento. O que importa é o efeito produzido. O olhar funcionou como operador de consciência. Tornou visível algo que já existia, mas permanecia latente. Não revelou o outro; revelou a si mesma.

 

Espinosa diria que esse encontro produziu um afeto que aumentou ou desorganizou a potência de existir, exigindo elaboração. Sartre diria que esse encontro obrigou o sujeito a se ver como projeto, como algo em construção, sem garantias.

 

Daí a implicação ética inevitável/ se somos constantemente afetados e também afetamos, então nossas palavras, gestos, reações e silêncios nunca são neutros. Participamos, direta ou indiretamente, da constituição do outro, assim como o outro participa da nossa. Vigiar o que dizemos e como reagimos não é moralismo, mas consciência relacional.

 

Os afetos, portanto, não são fraqueza nem descontrole. São linguagem. São indicadores de como existimos em relação. Ignorá-los é permanecer inconsciente da própria formação. Compreendê-los é dar um passo em direção à liberdade possível, que para Espinosa nunca é absoluta e para Sartre nunca é confortável.

 

No fundo, o afeto não fala do outro.

Ele fala do modo como somos tocados.

E é aí que começa qualquer ética possível.

 

 

É isso

 

Elixandra (costura pensamento filosófico)
Enviado por Elixandra (costura pensamento filosófico) em 19/12/2025
Copyright © 2025. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.

Site do Escritor criado por Recanto das Letras