

Remetente- Elixandra Destinatário- Mary
MARY
SEREI SEDE.
Mas não essa sede limpa, educada, de copo cheio e mesa posta. Minha sede é de lodo de margem de rio pisada, onde o pé afunda e a alma escurece sem culpa, entendeu, Mary, irmã de alma.
Escrevo-te nesta noite úmida, solitária. em que o corpo pensa antes da razão. A lua por aqui não ilumina, provoca. E eu uivo baixo.
Não é querer ser salva, nem dominar território.
Há algo em mim começando a fermentar. Um caldo antigo. Sangue fervendo lento, espesso, como se cada batida do coração fosse um tambor chamando o caos da entrega sem reservas.
Venho voltando, sim, do niilismo que seca tudo por dentro e não deixa vestígios. Mas não retorno à ordem. Retorno ao instinto natural. Ao progressivismo do corpo, dos sentidos, e não da ideologia niilista extremista.
Mary estou em ( risos) e essa sede não pede água. Pede mistura. Pede contato com o que é impuro, o da criação, da expansão o da afirmação da vida e por isso mesmo, vivo.
É sede que raspa a garganta, que arranha por dentro, como unhas afiadas de uma loba em fome. Que excita e assusta.
Há noites em que penso demais, analiso demais, e que pensar demais me afastou do pulso da vida. Do cheiro. Do suor. Da vertigem. Agora, nesse momento, o pensamento recua, -Mary- e me entrego e o corpo avança, como bicho libertado da jaula.
Sinto o cerco se fechando, mas não como prisão. É mais como um abraço bruto duplo do real "metade homem," "metade fera" do real. Sem metáfora suficiente. Sem céu garantido. Se isso é queda, caio consciente. Se é lodo, entro até os joelhos. Se é uivo, não calo. Escrevo porque a sede precisa de voz. E porque ainda acredito que duas consciências em febre podem não se salvar, mas ao menos arder juntas em letras.
Uma noite longa, um corpo acordado, Olhos fundos E dedos em calos. e o sangue lembrando que ainda corre.
Encerro essa carta, Mary te dizendo/ beber das tuas letras me inspira e me traz coragem de viver aquilo que temo.
Irmã de alma. Fera que me feri. Mãe da Isis.
E você conte-me suas felinidades /sem Repressão. Aguardo sua epístola ( carta resposta).
Assino sem sobrenome emocional …
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É isso
Elixandra (costura pensamento filosófico)
Enviado por Elixandra (costura pensamento filosófico) em 20/01/2026
Alterado em 20/01/2026 |