

Epístola 02/ Quando a Sede Aprende a Uivar em Duas Vozes
Remetente/Mary Destinatário/ Elixandra Cardoso
Serei /aquilo que não pede permissão à razão para existir.
Elixandra li tua carta como quem atravessa um portal de outras eras. Há névoa aqui. Bebo um chá de ervas amargas enquanto escrevo. Não há sol nem lua, apenas um tempo suspenso, um tempo só. Estou na cidade dos ossos, ou talvez no avesso das eternidades, onde o nada respira e a memória não envelhece. É daqui, desse lugar sem calendário e sem promessa, que tua sede me alcança como um chamado antigo, desses que não pedem resposta, apenas presença, e começo com a frase de um amigo:
“E o divino disse/ ama o teu inimigo. E eu obedeci e amei a mim mesma.” (Khalil Gibran)
Elixandra irmã te leio com o corpo inteiro. Não com os olhos comportados, mas com a pele aberta, como quem reconhece cheiro antigo no escuro. Recebo tua sede sem tentar limpá-la. Não te ofereço copo. Ofereço margem. Lodo. O lugar onde o pé afunda e a verdade sobe turva, mas viva. Tecendo auroras no avesso dos dias quentes, eu também misturo. Dionísio me atravessa o ventre, Apolo observa de longe, sem mandar. Esparta e Atenas em guerra mental Aqui, razão não governa. Aqui, ela aprende a dançar descalça. Porque a realidade não promete consolo. Ela apenas acontece. E negar isso é perder tempo precioso tentando salvar o mundo daquilo que ele "é" — pensamento que o irmão das eternidades Clemet Rosset sussurra, sem piedade, no ouvido de quem ainda quer desculpas. Sou Mary, sou várias, sou meus próprios mitos, sim. Das dores que não pedi e dos gozos que não negociei. Misturo palavras e raízes no mesmo caldeirão porque minha cura não é fórmula. É rito. É rasgo. É canto desafinado que ainda assim sustenta o meu mundo Inventado . A varanda quente vira ventre. A parede respira. O silêncio não é ausência, é um bicho mastigando o real embaixo da língua. O tempo aqui sua. Escorre. Confessa coisas que nem sei se são minhas, mas acolho. Insetos dançam revelações com asas bêbadas, e eu deixo. Nem tudo precisa de "sentido". Algumas coisas só pedem passagem. A distância, Elixandra, não se mede com régua. Se mede com sal grosso no pensamento e com o perfume da "lembrança". Como dizia minha avó, e tu sabes disso/ “Fecha o olho, minha filha, e desliza no teu encanto.” Eu me lanço. Alfinetes cravam o tecido da alma, sem anestesia. Um alfaiate lunar borda símbolos esquecidos no escuro do peito. A lótus abre. A Kabbalah pulsa. O axé bate baixo. Aqui, a vida não pede "justificativa". Ela se afirma. Mesmo quando dói. Mesmo quando não promete "redenção" — como diria meu irmão das eternidades Nietzsche, amar o destino não é aceitar de olhos fechados, é dizer sim até para o que "fere". Mirra e óleo escorrem entre véus que não escondem, apenas anunciam. O cálice escuro me chama. Não com medo. Com "reconhecimento". Há uma Elixandra sob o sol de Lacedemônia, eu sei. Uma pitonisa das horas íntimas, lançando feitiços do bem com palavras sem "coleira", sem pedir permissão à "razão". Nossos gládios são versos. Nossas lanças, agulhas Não para ferir, mas para rasgar véus e tocar o que é verdadeiro nos tecidos do "ser." E se o mundo for sofrimento, como já avisava o irmão das eternidades Schopenhauer, que seja ao menos um sofrimento consciente, olhos abertos, corpo presente, sem "mentir para si." O rito está aberto. A iniciação não tem manual. Tem corpo. Tem pulso. Tem chama no "verbo". Cada palavra tua abre um portal. E eu caminho sobre brasas de linguagem, com os pés nus do "entendimento," sabendo/ "há mais verdade no delírio bem pronunciado do que na lucidez que se ajoelha". Recebo teu gládio como taça. Bebo. Absinto com pimenta rosa. Por Apolo Por Kallil Ginbran Por Clément Rosset Por Schopenhauer Por Nietzsche Por Dionísio. Por Atenas. Por Esparta. Por mitos. Por todas as feras que nos habitam desde antes do nome, da escrita, da razão. E por nós, que não buscamos salvação, mas presença. Se arder, ardemos. Se for lodo, entramos. Se for uivo, respondemos. O rito está aceso, irmã de alma. E eu estou aqui. Sem repressão. Sem medo. Com o sangue lembrando que ainda corre.
E encerro com a frase empoeirada que diz:
Angústia da existência. O mal-estar está dado, a angústia está posta, "só resta escolher você". Diante da angústia não adianta fugir, o que resta é abraçá-la. Não existe essência. Teremos que construir uma. Resumindo/ você é o seu grande problema.
Aguardo sua epístola ( carta) resposta. daqui das camadas onde o tempo apodrece devagar e o desejo não dorme, apenas ronda. Agora me recolho. Vou deitar neste sono das eternidades, onde o corpo repousa, mas algo em mim permanece desperto, com a boca entreaberta para o invisível e a pele atenta ao que pode atravessar a noite. Se vieres, vem em pensamento. Se me tocares, que seja no escuro.
Durmo, mas não me fecho.
Mary...
É isso
Elixandra (costura pensamento filosófico)
Enviado por Elixandra (costura pensamento filosófico) em 27/01/2026
Alterado em 27/01/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |