Elixandra cardoso, costura pensamento

"Tecendo silêncios e sentidos entre fios e pensamentos"

Meu Diário
12/03/2026 11h25
Noite de Instinto ( comunicação noturna )🦇🦇🦇🦝🦝🦝 🐕🐕🐕

 

 

Comunicação Noturna

A varanda respira frio.

A madrugada caiu inteira sobre a casa e o mundo parece suspenso entre dois batimentos do relógio.

Tic.

Tac.

Um morcego corta o ar escuro, rasgando a noite com curvas silenciosas. Ele não vê como os humanos veem. Ele sente. Escuta o invisível.

Lá embaixo, na terra úmida do pensamento, uma loba caminha dentro do peito.

Ela também sente.

O livro está aberto sobre a mesa da varanda, mas as palavras já não mandam em nada. A mente se soltou. Corre pelos caminhos antigos do corpo.

O morcego passa outra vez.

A loba levanta o focinho.

Não há som entre eles.

Ainda assim, algo se responde.

Um chamado sem voz.

Uma vibração atravessando o escuro.

O vento entra pelas brechas da madrugada e arrepia a pele como um presságio. Há noites em que o mundo inteiro parece perigoso. Não pelo que aparece… mas pelo que acorda.

A loba anda em círculos dentro do peito, inquieta, quente no frio da madrugada.

O morcego insiste em sobrevoar a varanda, guardião das sombras.

Eles se entendem.

Instinto conversa com instinto.

Enquanto o relógio segue marcando o tempo dos humanos, algo mais antigo se move na noite. Algo que não precisa de palavras.

A loba sabe.

O morcego também.

E no meio dessa varanda fria, entre livro aberto e pensamento em fuga, a madrugada inteira se transforma numa linguagem secreta, e pertubante 

Acorda já é dia... 

Ilusão passou

Assim disse o cachorro.

 

Prosa poética  arquétipica 

Morcego 

Loba

Cachorro


Publicado por Elixandra (costura pensamento filosófico) em 12/03/2026 às 11h25
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10/01/2026 23h59
AGORA ( Prosa Reflexiva Poética)

Uma da manhã, na varanda.

Escuro. Silêncio.

Aconteceu tudo de novo.

Eu estava ali sentada, acordada entre um cochilo e outro,

me afogando em comparações cruéis.

Olho pro centro da varanda e só tem a luz da lua.

Ela tá ali.

Sempre esteve.

Sinto vontade de acreditar que isso ainda liga a gente,

mas sei que não liga.

Chego a pensar que eu poderia ter sido

teu ponto final no amor.

É uma ideia boa.

Confortável.

Mas não é verdade.

Às vezes penso no que você estaria fazendo agora.

Talvez nada demais.

Talvez qualquer coisa.

Talvez seguindo a vida.

Sou eu que fico aqui

insistindo em te buscar na imaginação.

O que eu faço agora é isso/

te peço em silêncio pra não me esquecer.

Mesmo sabendo que pedir não muda nada.

Ainda tem em mim essa vontade de fazer parte da sua vida,

de estar incluída,

de não ser só alguém que ficou pra trás.

Mas também sei que existem lugares

onde a gente não é mais convidada a entrar.

Depois desses pensamentos, fica um silêncio.

E eu sinto que foi…

Bobagem.

Não é nada além de saudade.

Não tem mistério.

Não tem sinal.

Não tem conexão escondida atrás da luz.

A vida já mostrou que nossos caminhos não se juntam mais.

Isso dói porque é simples.

Não tem drama grande.

Só constatação.

Você foi importante.

Muito. Muito mesmo.

E vai continuar sendo parte da minha história.

Mas o que vem daqui pra frente

não tem você.

Algumas lembranças ficam.

Não porque eu escolhi.

Mas porque é assim.

Olho de novo pra varanda

e sinto que preciso parar de esperar alguma coisa.

Acendo uma luz qualquer.

Seguro ela nas mãos

e penso/

agora eu preciso cuidar de mim

 

Elixandra Cardoso 

 


Publicado por Elixandra (costura pensamento filosófico) em 10/01/2026 às 23h59
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08/01/2026 23h27
CRIME ÍNTIMO (Anatomia de Uma Conexão Que Não Nasceu)

A pior coisa é tentar se espremer onde não cabemos.

Dói porque o corpo sabe antes da cabeça.

Chamam de dificuldade, de apego, de esperança mal explicada.

Mas não.

É clareza.

Forçar uma conexão emocional onde ela não nasce

é violência silenciosa.

Um crime íntimo, sem testemunha,

com a gente no papel de ré e carrasco.

E não, isso não tem nada a ver com ser insuficiente, defeituoso

ou fora do gosto alheio.

Não é falha de caráter.

Não é falta de brilho.

É só a vida fazendo o que sempre fez

seguindo, selecionando, desviando.

Sem drama.

Sem pedido de desculpa.

Quem não cabe não está errado.

Só está no lugar errado.

 

Elixandra Cardoso. 


Publicado por Elixandra (costura pensamento filosófico) em 08/01/2026 às 23h27
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08/01/2026 13h13
CARTAS AUSENTES ( Poesia experimental)

 

Folheei as cartas ontem,

os anexos,

li também os anexos

não enviados.

 

Ler

 

foi como atravessar

teu silêncio,

que dói mais que agressão.

Mas vi você,

ali entre as folhas,

tão longe de chegar.

 

Foi no deserto do teu olhar

que me encontrei.

Não foi intenção apaixonar.

Era mera distração.

 

Veio

pra ficar.

 

Foi infernal.

Foi fatal.

Foi bruto.

Teu olhar.

 

Ainda sinto… sinto.

Teu deserto tem sede de me amar,

mas preferiu as securas

do silêncio profundo

ao centro do deserto.

 

Ler as cartas não enviadas

não alivia minha sede.

Apenas

revelou a minha

e a tua.

 

......


Publicado por Elixandra (costura pensamento filosófico) em 08/01/2026 às 13h13
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06/01/2026 12h06
LABIRINTO DE MEL E VENENO ( Experimental/metáforas/ arquétipico/ mítico/ perda dos sentidos)

São filhos do labirinto

onde o Minotauro não é monstro,

é homem cansado de ser força

sem nome

 

Ele guarda o centro

não por crueldade,

mas porque ninguém o ensinou

a ser Augusto Leão,

a sair inteiro.

 

Ela entra cigana,

saia rodada de presságios,

baralho na boca,

língua afiada de destino.

Leva palavras como quem leva lâminas

embrulhadas em mel.

 

É sereia também.

Canta não pra matar,

mas porque, se calar,

afoga-se.

Sua voz seduz, fere, chama.

Doce veneno.

 

Ele escuta.

Seu nome/ Morcego.

E se perde mais fundo

no mais profundo inferno brutal.

 

Ela fala

e depois prova

do mesmo veneno.

Salomé.

 

Suas palavras o atravessam

como fio de Ariadne ao contrário/

não conduzem pra fora,

conduzem pra dentro,

às entranha.

 

Grita em orgasmos.

Afrodite, rebelde selvagem,

Medusa,

e encorpa.

 

A saliva nasce da boca,

escorre como presságio louco,

líquido antigo,

escrito antes do nome.

 

Sente tua presença agora

em forma de Muladhara,

língua de vento

deslizando onde a pele

guarda mistérios ocultos

das profundezas das felinidades 

não domesticadas,

mãe-sombra.

 

Mãos que não tomam

circundam o corpo.

Cintura que não se prende,

se oferece ao ritmo.

Alma de espelho negro canta/

verso é um passo,

cada promessa,

um corredor sem luz.

 

É mulher que envenena com palavras,

alquimista, bruxa,

e é envenenada por elas.

Mulher-esqueleto,

loba malcriada, diz/

 

Quero teu sangue em cálice ritual.

Quero tua alma em oferenda sacrificial.

Quero tua carne em cordão umbilical cortado.

Quero teu sêmen sem repressão.

Quero teu calor tatuado de runa.

Quero tua alma em vigília,

o pulso que te move.

Quero tua boca em círculos de sal

dizendo o que não escreve.

Quero tuas mãos sem chicote.

Quero teu bem sem prisma da submissão.

Quero teu avesso sem holocausto da obediência.

 

Quero o homem inteiro,

com luz e sombra

de Dionísio e Apolo misturadas.

Não sei como.

Não sei quando.

 

Sem cálculo de coruja que ameaça o delírio.

Mas serei ameaçando razão

e na dança dos quatro ventos.

Serei em personagem

ou usando todos eles.

 

Sua boca fabrica feitiços

de obsidiana negra

que voltam mordendo a língua.

Não existe inocente

quando o verbo é afiado

em batismo de sombras.

 

O Minotauro,

de tiara de serpentes, a olha

com olhos de quem já foi menino

das constelações

de olho de tigre

e pergunta/

 

— Quer saída?

Zahra oferece espelho uterino

da tua própria fragilidade e diz/

Nos amamos assim/

ele com seus chifres de culpa,

eu com meus mitos

de véu nos quadris.

Sem redenção,

sem herói,

sem Teseu.

Porque nesse labirinto

de lágrimas rituais

não se mata o monstro.

Se reconhece.

 

E no centro da palavra mau-dita,

onde o medo ajoelha,

descobrimos tarde demais/

o veneno era doce

porque era verdade.

 

Mulher-fumaça, Lilith, diz

/ com ironia fina do destino /

o mesmo feminino que eles tentaram domesticar com conceitos

voltou séculos depois como pensamento, corpo, escrita, mito, política e linguagem.

somos riscos calculados.

 / feminino / masculino

 

Elixandra Cardoso. 


Publicado por Elixandra (costura pensamento filosófico) em 06/01/2026 às 12h06
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